8.11.10

Nordestinos

A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância de São Paulo instaurou um inquérito para investigar o cunho preconceituoso de mensagens contra nordestinos, publicadas no twitter pela estudante de direito Mayara Petruso, após a confirmação da vitória de Dilma Rousseff como presidente da República. Em uma delas, escreveu que “nordestino não é gente”, entre outras “ofensas” (as aspas são minhas).

Fico meio perdido na minha análise. Pois o site da ainda candidata Dilma publicou um título absolutamente explícito CONTRA os paulistas: “Zé Pedágio pensa que nordestinos são bestas como os paulistas” (o nome "Zé Pedágio" referia-se a José Serra, sempre de conformidade com o linguajar chulo e o baixo nível utilizado pelos petistas em toda a campanha) http://bahr-baridades.blogspot.com/2010/10/paulistas-recado-da-dilma-para-voces.html.

Eu, como paulistano, não gostei nadinha, mas nem por isso fui me queixar na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância – apesar de muito ofendido.

Não chegarei ao ponto de tentar ser “politicamente correto” e afirmar que não, não existe um sentimento antinordestino por parte dos paulistas. Não gostei nada, nada, quando elegeram a tal paraibana Luiza Erundina como prefeita – deu no desastre que deu. Eu vi. Eu estava lá. Também não gosto nada, nada, quando o nordestino Lula fala mal de São Paulo – justo ele, que chegou de pau-de-arara na capital paulista, lá arrumou emprego e se projetou nacionalmente graças aos paulistas – agora vem sistematicamente cuspindo no prato que lhe deu de comer.

O que existe de real nessa história de antinordestinidade é a necessidade de encarar os fatos atuais. Sugiro que leiam o livro “O Fim dos Empregos”, de autoria do norte-americano Jeremy Rifkin, publicado no Brasil em 1996 pela então Makron Books do Brasil, cujo tema era o declínio inevitável dos níveis dos empregos e a redução da força global de trabalho. Rifkin já projetava o crescente número de pessoas subempregadas ou sem trabalho em todo o mundo, devido à rápida e extraordinária revolução tecnológica, através de computadores sofisticados, robótica, telecomunicações, etc., que viriam substituir incontáveis funções dos seres humanos.

Os nordestinos que deságuam em São Paulo o fazem pela absoluta falta de trabalho e de condições nos seus estados de origem. Seja pela eterna seca, seja pela pobreza extrema, seja pelos parcos reais que recebem dos remanescentes “coronéis”, seja por ouvirem dizer que São Paulo é o eldorado prometido, a Terra Santa do enriquecimento. Pois quando chegam a São Paulo, esses nordestinos sem estudo, sem profissão definida, sem experiência, sem cultura, sem noções, farão parte do enorme contingente de desempregados e miseráveis que habitam a cidade, morando em sub-habitações, nas favelas, no entorno, na periferia, nos alagados, nos brejos, nas encostas de morros, restando desempregados e abandonados, corroborando in totum as previsões do escritor Jeremy Rifkin.

E, pior: esse enorme contingente humano totalmente desestruturado, que não para de crescer, gera incontáveis filhos com incontáveis mulheres, lota os hospitais e pronto-socorros e se constitui no grupo de maior criminalidade e de presos do estado, é o mesmo que reclama do prefeito, do governador, das escolas, dos hospitais e das instituições públicas, “exigindo” melhores condições de vida. Ou seja, exigem do estado de São Paulo tudo o que lhes foi negado nos estados de origem pelos governantes de lá e principalmente pelo governo federal, que jamais se esforçou em resolver definitivamente os problemas do Nordeste, a região mais pobre, mais insalubre, mais desnutrida, mais atrasada e menos escolarizada do Brasil.

Mayara Petruso, paulista, não é a única a desfiar suas queixas contra esses nordestinos.

Como escreveu Reinaldo de Azevedo no seu blog da Veja: “Nordestinos, mineiros, sulistas etc. escrevem coisas inaceitáveis sobre paulistas? O tempo inteiro! Uma simples pesquisa na rede vai revelá-lo. O ressentimento contra São Paulo é tão grande quanto escandalosamente injusto. Injusto, aliás, é o ressentimento contra qualquer região. Mas São Paulo está proibido de posar de vítima porque não pega bem. Afinal, o estado mais rico da federação — e fica parecendo que assim é porque roubou isso de alguém… — tem de aguentar calado as suas supostas culpas.”

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