2.10.10

Reprodução: carta para Chico Buarque

(Escrita por José Danon)

Chico, você foi, é e será sempre meu herói. Pelo que você foi, pelo que você é e pelo que creio que continuará sendo. Por isso mesmo, ao ver você declarar que vai votar na Dilma “por falta de opção”, tomei a liberdade de lhe apresentar o que, na opinião do seu mais devoto e incondicional admirador, pode ser uma opção.
Eu também votei no Lula contra o Collor. Tanto pelo que representava o Lula como pelo que representava o Collor. Eu também acreditava no Lula. E até aprendi várias coisas com ele, como citar ditos da mãe. Minha mãe costumava lembrar a piada do bêbado que contava como se tinha machucado tanto. Cambaleante, ele explicava: “Eu vi dois touros e duas árvores, os que eram e os que não eram. Corri e subi na árvore que não era aí veio o touro que era e me pegou.” Acho que nós votamos no Lula que não era aí veio o Lula que era e nos pegou.

Chico, meu mestre, acho que nós, na nossa idade, fizemos a nossa parte. Se a fizemos bem feita ou mal feita, já é uma outra história. Quando a fizemos, acreditávamos que era a correta. Mas desconfio que nossa geração não foi tão bem-sucedida, afinal. Menos em função dos valores que temos defendido e mais em razão dos resultados que temos obtido. Creio que hoje nossa principal função será a de disseminar a mensagem adequada aos jovens que vão gerenciar o mundo a partir de agora. Eles que façam mais e melhor do que fizemos, principalmente porque o que deixamos para eles não foi grande coisa. Deixamos um governo que tem o cinismo de olimpicamente perdoar os “companheiros que erraram” quando a corrupção é descoberta. Desculpe, senhor, acho que não entendi. Como é mesmo? Erraram? Ora, Chico. O erro é uma falha acidental, involuntária, uma tentativa frustrada ou malsucedida de acertar. Podemos dizer que errou o Parreira na estratégia de jogo, que erramos nós ao votarmos no Lula, mas não que tenham errado os zésdirceus, os marcosvalérios, os genoinos, dudas, gushikens, waldomiros, delúbios, paloccis, okamottos, adalbertos das cuecas, lulinhas, beneditasdasilva, burattis, professoresluizinhos, silvinhos, joãopaulocunhas, berzoinis, hamiltonlacerdas, lorenzettis, bargas, expeditovelosos, vedoins, freuds e mais uma centena de exemplares dessa espécie tão abundante, desafortunadamente tão preservada do risco de extinção por seu tratador. Esses não erraram. Cometeram crimes. Não são desatentos ou equivocados. São criminosos. Não merecem carinho e consolo, merecem cadeia.
Obviamente, não perguntarei se você se lembra da ditadura militar. Mas perguntarei se você não tem uma sensação de déjà vu nos rompantes de nosso presidente, na prepotência dos companheiros, na irritação com a imprensa quando a notícia não é a favor. Não é exagero, pergunte ao Larry Rother do New York Times, que, a propósito, não havia publicado nenhuma mentira. Nem mesmo o Bush, com sua peculiar e texana soberba, ousou ameaçar jornalistas por publicarem o que quer que fosse. Pergunte ao Michael Moore. E olhe que, no caso do Bush, fazem mais que simples e despretensiosas alusões aos seus hábitos ou preferências alcoólicas no happy hour do expediente.
Mas devo concordar plenamente com o Lula ao menos numa questão em especial: quando acusa a elite de ameaçá-lo, ele tem razão. Explica o Aurélio Buarque de Hollanda, seu tio, que elite, do francês élite, significa “o que há de melhor em uma sociedade, minoria prestigiada, constituída pelos indivíduos mais aptos”. Poxa! Na mosca. Ele sabe que seus inimigos são as pessoas do povo mais informadas, com capacidade de análise, com condições de avaliar a eficiência e honestidade de suas ações. E não seria a primeira vez que essa mesma elite faz esse serviço. Essa elite lutou pela independência do Brasil, pela República, pelo fim da ditadura, pelas diretas-já, pela defenestração do Collor e até mesmo para tirar o Lula das grades da ditadura em 1980, onde passou 31 dias. Mas ela é a inimiga de hoje. E eu acho que é justamente aí que nós entramos.
Nós, que neste país tivemos o privilégio de aprender a ler, de comer diariamente, de ter pais dispostos a se sacrificar para que pudéssemos ser capazes de pensar com independência, como é próprio das elites - o que, a propósito, não considero uma ofensa -, não deveríamos deixar como herança para os mais jovens presentes de grego como Lula, Chávez, Evo Morales, Fidel - herói do Lula, que fuzila os insatisfeitos que tentam desesperadamente escapar de sua “democracia”.
Nossa herança deveria ser a experiência que acumulamos como justo castigo por admitirmos passivamente ser governados pelo Lula, pelo Chávez, pelo Evo e pelo Fidel, juntamente com a sabedoria de poder fazer dessa experiência um antídoto para esse globalizado veneno.
Nossa melhor herança será o sinal que deixaremos para quem vem depois, um claro sinal de que permanentemente apoiaremos a ética e a honestidade e repudiaremos o contrário disto. Da mesma forma que elegemos o bom, destronamos o ruim, mesmo que o bom e o ruim sejam representados pela mesma pessoa em tempos distintos. Assim como o maior mal que a inflação causa é o da supressão da referência dos parâmetros do valor material das coisas, o maior mal que a impunidade causa é o da perda de referência dos parâmetros de justiça social. Aceitar passivamente a livre ação do desonesto é ser cúmplice do bandido, condenando a vítima a pagar pelo malfeito. Temos opção. A opção é destronar o ruim. Se o oposto será bom, veremos depois. Se o oposto tampouco servir, também o destronaremos. A nossa tolerância zero contra a sacanagem evitará que as passagens importantes de nossa História, nesse sanatório geral, terminem por desbotarem na memória de nossas novas gerações. Aí, sim, Chico, acho que cada paralelepípedo da velha cidade, no dia 3 de outubro, vai se arrepiar.
Seu admirador número 1, Zé Danon
José Danon é economista e consultor de empresas

5 comentários:

  1. Júlio.Votarei daqui a pouco,(no Serra,45,é claro.)Por ser ele o mais honesto,transparente,organizado e confiável.Também visivelmente o mais hígido,tanto física quanto moral e espiritualmente.E não poderia deixar de agradecer a você ,Júlio, por esse seu Blog assim tão bem informado,por sua erudição e clareza,que tanto contribuíram para que eu formasse minha convicção.Isso é cidadania,isso é democracia .Parabéns e muito obrigada.(Marie)

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  2. Júlio. Votarei daqui a pouco, (no Serra, 45, é claro.) Por ser ele o mais honesto, transparente, organizado e confiável.Também visivelmente o mais hígido, tanto física quanto moral e espiritualmente. E não poderia deixar de agradecer a você, Júlio, por esse seu Blog assim tão bem informado, por sua erudição e clareza, que tanto contribuíram para que eu formasse minha convicção. Isso é cidadania, isso é democracia. Parabéns e muito obrigada. (Marie)

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  3. Seu Julio,
    Excelente idéia de veicular este texto através do seu sempre brilhante blog. Triste que talvez não surta o efeito que nós todos queríamos: evitar o erro da continuidade. Agora só torcendo por um milagre.
    Abraço,
    Giachetta.

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  4. Caríssimo Giacca,
    Estas inserções no meu e em outros blogs talvez surtam, sim, algum efeito. É a forma de demonstrar nossa insatisfação com essa continuidade - que envereda cada vez mais para caminhos perigosos. O pessoal da minha idade, muitos de nós filhos de imigrantes, já sentimos na carne, na alma e no bolso o que significa um mau governo, o desgoverno e o risco de políticas ditatoriais e comunistóides. Os blogueiros ainda se constituem em uma trincheira para defender princípios e denunciar os erros, as baboseiras e as cretinices que ocorrem à nossa volta. Um abração, Julio

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  5. Essa declaração do Chico Buarque – de que votou na Dilma por falta de opções – é de estarrecer. Não combina com a inteligência dele. O Chico tinha opções, sim. Ele poderia votar em quem não compactua com o bolivarianismo, as ditaduras, a censura à imprensa, os torturadores de presos políticos, a estagnação de países como Cuba (a paixão do Chico) e Bolívia (o Piauí brasileiro), os cartéis das drogas colombianas, as babozeiras do Chavez e as ameaças nazistas e beligerantes do Ahmadinedjad. Chico Buarque é melhor músico e compositor do que analista político. Acerta nas letras e músicas e erra nas escolhas dos seus candidatos. Está na hora dele entregar sua casa, seu campinho de futebol, seus royaltes e seu patrimônio aos “cumpanhero” que ele tanto admira. Ou se mudar para Cuba.

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