2.2.10

Motorista paulistano

Engato a primeira quando está na iminência de abrir o farol. Motor roncando. Ai do motorista da frente se ele se atrasar um segundo. Êpa! O cara da direita está tentando me fechar. Olho feio pra ele. Não, não é ele. É ela! Olho feio do mesmo jeito. Pensa que me engana? Pronto, abriu o farol. Raios! O cara da frente é um japonês, tá devagar, não sabe dirigir na cidade grande. Todo mundo está ultrapassando, minha fila é a mais lenta. Pronto, saí de banda, peguei a outra fila. Caramba! Parou! Tem um caminhão parado nessa fila. E é a da esquerda. O que é que o cara do caminhão está fazendo na fila da esquerda? Saio de banda novamente. Abro a janela e solto um palavrão cabeludo para o motorista do caminhão. Ele faz um gesto de volta com o dedo... me mandou para aquele lugar. Avanço uns trinta metros. Vai fechar o outro farol, vou tentar passar... não deu! Pronto. Agora estou com as rodas da frente na faixa de segurança. Espero que não apareça um marronzinho... apareceu. Me multou! E foi tudo culpa do caminhão. Que é isso? O cara do Audi está conversando ao celular. Não pode, pô! E o marronzinho não vai multar o cara? Abriu o farol, lá vou eu. O cara do Audi arranca, continua falando ao celular. Ah! Não! Apareceram uns motoqueiros ziguezagueando entre os carros, quase levaram meu retrovisor. Pronto, levei outra fechada. É um boyzinho com o carro do papai, se aproveitou quando os motoqueiros me assustaram. Já perdi outra vez meu lugar na fila. Que que é isso? Uma Brasília caindo aos pedaços! Agora é que não vai andar a minha fila. Olha só o estado da Brasília, é multicolorida. O capô da frente nem está pintado, o carro foi montado em um desmanche. E olha só o guarda, faz vista grossa. A Brasília passou pelo guarda, ele nem tchan! Isso é muito injusto, pô! Agora falta pouco para eu chegar ao meu destino, só falta achar lugar para estacionar. Nada! Vou dar outra volta no quarteirão, quem sabe aparece uma vaga. Olha lá, que sorte. Não, não, tem aquela mulher que estava de boca esperando o carro sair, estou torcendo para ela fazer barbeiragem e se mandar. Não fez. Vou dar outra volta. Pombas, não tem lugar. Vou para um estacionamento. Entrego o carro ao manobrista, preocupado, o cara vai sair cantando pneus, olho no espelho, estou suando, meu rosto está transfigurado. Mas cheguei. Tô vivo. Preciso me acalmar. Bom, agora vou virar cordeirinho novamente.

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