13.9.09

Os ‘hermanitos’ Chavez, Lula, Morales e a censura na América Latina

Texto apresentado em 13/09/09 na
Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina
Julio Ernesto Bahr

Notícias recorrentes nos dão conta de que em vários países da América Latina onde ocorre a implantação das ditaduras populistas, os novos déspotas estão realizando esforços orquestrados para impor novamente a censura sobre a imprensa e os meios de comunicação.

Na Venezuela de Chavez a trama é mais visível, com o fechamento contínuo de jornais, emissoras de rádio e tevê.

No Brasil, o governo populista do Lula discute a possibilidade de censurar até os blogs que trazem comentários e críticas políticas. Pois nossos jornais, emissoras de rádio e de tevê já estão censurados de longa data, amordaçados pelas verbas publicitárias que são o seu sustentáculo comercial. A recente censura imposta por um desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios ao ‘Estadão’ é a prova inconteste de que uma ditadura está se impondo novamente em nosso país.

O que mais impressiona é o silêncio das entidades de classe como a ABI - Associação Brasileira de Imprensa, a ABL, a OAB e outras entidades politicamente poderosas que outrora esbravejavam e erguiam suas vozes de protesto alto e bom som.

A censura brasileira foi bastante atuante nos tempos da ditadura e poucos brasileiros se deram conta do alcance de tal aberração. Não foi somente nos jornais O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde onde a censura mais se fez notar, pois as matérias cortadas pelos censores eram substituídas por receitas culinárias e versos de Camões exatamente nos espaços censurados. A censura agiu com mão forte também no reacionário jornal Pasquim, no teatro, no cinema, na música, em outros jornais e revistas brasileiros.

Mas há aspectos que poucos tomaram conhecimento.

A censura agiu ostensivamente na publicidade. Todos os materiais que nós, publicitários, enviávamos para publicações no Exterior, passavam obrigatoriamente pela Polícia Federal. Eu mesmo estive pessoalmente frente a censores na Rua Xavier de Toledo em São Paulo, em 1973, para liberar anúncios desenvolvidos pela minha agência de propaganda para um cliente e destinados a publicações na Holanda e Bélgica, por ocasião da primeira Feira Brazil-Export no Exterior, em Bruxelas.

Aqueles que minimamente tomaram conhecimento dos horrores provocados pelo nazismo, certamente já assistiram ou leram sobre a técnica nazista que consistia em promover pessoas de baixo nível social e intelectual para postos importantes nas tropas das famigeradas “SS”, que eram as “Tropas de Proteção” ligadas ao partido nazista e comandadas por Himmler. Assim, o ex-carteiro, o ex-alfaiate, o ex-açougueiro e até o ex-inútil da aldeia, subitamente se viam uniformizados, guindados à posição de carrascos daqueles judeus, ciganos, padres, pederastas, negros e outros grupos étnicos minoritários aos quais até então serviam. Aproveitavam a oportunidade para destilar suas frustrações, seu sadismo, sua raiva e sua incompetência infligindo-lhes torturas, castigos e até a morte.

Pois a censura não difere muito destes métodos. Ou seria possível alguém acreditar que na época da ditadura militar no Brasil a Polícia Federal contasse em seus quadros espalhados por todas as cidades brasileiras com professores-doutores, mestres em literatura ou pessoas dotadas de um grau mínimo de intelectualidade para censurar com olhar profissional e competente os materiais a eles apresentados?

Prova disso foram os censores aos quais eu me reportei à época, que com certeza não eram luminares da inteligência brasileira. Os diálogos foram ásperos, primitivos e ai de mim se ousasse tecer qualquer comentário a respeito: a “otoridade” se faria valer!

Ditadura e censura caminham de braços dados. Analisem esta citação que se tornou símbolo da resistência aos nazistas, de autoria de Martin Niemöller, - pastor luterano que recebeu o Prêmio Lênin da Paz em 1966:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar...
Obs.: quando este texto foi escrito, ainda não havia ocorrido a "fiscalização" por 150 autoridades fiscais no jornal Clarin de Buenos Aires, ordenada pela 'hermanita' Kirchner.

Um comentário:

  1. Muito na vanguarda este artigo.Após ele (e sobre o mesmo tema)lemos no Estadão de 20/09/2009:"A montagem de uma falácia",de Maria Sylvia de Carvalho Franco;"Ruidosos agentes do silêncio",de Demétrio Magnoli;"A censura é um absurdo ,é uma excrescência"(entrevista com Francisco de Oliveira).Lemos ainda na edição do mesmo Estadão,de 21/09/2009 ,artigo veemente de Ives Gandra Martins,também contra a censura.
    Parabéns a Júlio Bahr por "jogar no mesmo time" desses intelectuais e por até se antecipar a eles.

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