15.6.09

Quem é o seu "ghost writer"?

Texto apresentado em 14/06/09 na Academia de Letras,
Ciências e Artes de Londrina


O termo ghost-writer (escritor-fantasma) provavelmente surgiu nos Estados Unidos, para designar a pessoa anônima que escreve nos bastidores os mirabolantes discursos – e até livros – de políticos, autoridades, empresários e outras figuras públicas.

Confesso que também tenho meu ghost-writer particular.

Quando escrevo, ocorrem dois fatos que já foram descritos de forma similar por vários escritores famosos ou não.

O primeiro: os personagens que criamos de repente passam a dominar a história. Eles tomam seus rumos próprios, independentes de nossa vontade e por vezes chegam a levar a história a um desfecho completamente diferente do planejado. Novos personagens que nem constavam do projeto literário, subitamente ingressam no cenário.

O segundo fato – e isso ocorre também profissionalmente na criação publicitária – faz-me pensar que um ente abstrato toma conta dos meus pensamentos e dirige as minhas ações, proporcionando-me em geral resultados inesperados e gratificantes, muito além do que eu imaginava ser a minha capacidade de criação e realização.

O Acadêmico Professor Leonardo Prota(1) com a sua capacidade de análise sempre tão profunda e sensata, com certeza poderia nos esclarecer filosoficamente como funciona esse processo em nossa mente.

Na psicologia, especialistas diriam que esse é o resultado do conteúdo de gavetas mentais arquivadas no nosso cérebro, muitas delas trancadas como arquivos mortos, mas que se abrem e vêm à tona por associações de idéias ou por lembranças remotas.

Neurocientistas dirão que o resultado da criação ocorre do processo de sinapse, ou seja, uma transmissão ou diálogo permanente, que promove milhões de mudanças, sentimentos, dúvidas e decisões em nossos cérebros - um processo através do qual uma informação transforma-se de impulso elétrico em impulso químico e, novamente, num outro neurônio em impulso elétrico.
(2)

Já eu, apenas um diletante de filosofia, nota zero em ciências, mais fã de psicólogas do que de psicologia, reputo esse processo de criação abstrato como uma colaboração do meu ghost-writer particular. Inclino-me a acreditar plenamente que essa seja a mão de D’us nos guiando para exercermos cada vez melhor nossa criatividade. Talvez o processo tão isolado da criação seja o momento propício para que obtenhamos a maior aproximação, a cumplicidade mais forte, mais íntima, mais perceptível, mais notável, com o nosso Criador.

Chego à conclusão de que todos nós temos um ghost-writer nos auxiliando em nossas criações, com maior ou menor percepção de cada um. Eu estou extremamente feliz por sentir a proximidade do meu ghost-writer, já de longa data. E espero sinceramente que ele jamais me abandone.

Termino estes escritos mais filosófico-científico-teológicos do que literários, com duas citações para reflexão:

“Escrever não é conhecimento apenas, escrever é a alma de D’us nas pontas dos dedos.”
(Autor não identificado)


“Depois de usar ópio e ler um pouco, o poeta Coleridge
(3) adormeceu e sonhou com um poema. Quando acordou, percebeu que a história era ótima e sentou-se para escrever. No entanto, alguém bateu na porta, Coleridge foi atender e, quando voltou ao seu texto, havia esquecido da sua idéia. O poema figura até hoje pela metade em antologias poéticas.”

Para Moacyr Scliar, autor dessa citação, o que se manifestou durante o sonho do poeta foi o seu inconsciente, que depois de um pequeno período em contato com o seu lado consciente, se fechou outra vez. “A inspiração não vem de fora. Ela está dentro de nós”, completa Scliar.

Um recado ao meu ghost-writer anônimo: apareça sempre e seja muito bem-vindo!

JEB

(1) O Professor Prota é filósofo e acadêmico da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina
(2) Sinapses: bases da criação literária - Rodrigo Gurgel
(3) Poeta inglês, viveu nos fins do Século XVIII ao início do Século XIX

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