9.2.09

Reforma ortográfica. Para unificar o quê?

Há poucas semanas, estava eu relatando ao meu filho em visita a Londrina, sobre a beleza de uma moça nissei com quem cruzava diariamente ao caminhar no entorno do Lago Igapó II.

- Ela é um biju – terminei o relato, julgando que havia dito tudo.

- Biju, pai? Fazia muito tempo que eu não ouvia essa expressão. Deve ser muito antiga -, retorquiu meu filho.

Ultimamente tenho pensado bastante nisso. Como vai se transformando nossa língua luso-brasileira! Quantas palavras usadas na minha juventude já se foram para as calendas gregas! Aliás, nunca mais ouvi um jovem usar a palavra calendas. Como não os ouço falando, “bacana”, “almofadinha”, “dandi”, “esculachar”, “varapau”, “mutreta”, “mão leve”, “necas”, “dar uma de Miguel”, “beque central”, “panca”, “janota” e tantas outras gírias, palavras e expressões da época.

Lembro-me quando veio a reforma ortográfica dos anos setenta. Levou um bocado de tempo para assimilarmos as mudanças, vira e mexe éramos obrigados a consultar o dicionário.

Agora, inventaram mais uma reforma, pretendendo integrar o Brasil no seio dos países lusófonos – ou seria o contrário? Entendidos já afirmaram que esta é uma reforma inócua, que não serve para tal integração, pois a escrita e a fala continuam sendo bastante diferentes. Portugal, Angola, Cabo Verde, Timor Leste e os outros países que falam o português de Portugal vão continuar falando e escrevendo do mesmo jeito. Aqui, baianos, pernambucanos, cariocas, paulistas, paulistanos, paranaenses, gaúchos e brasileiros de outras regiões vão continuar a falar e escrever com as suas peculiaridades.

Os mesmos entendidos acreditam que tal mudança servirá apenas para enriquecer dicionaristas e editoras, que já estão imprimindo dia e noite os dicionários e livros escolares com a nova ortografia.

O pior mesmo sobrou para nós, os mais velhos. Esqueceram da gente, outra vez. Pois a esta altura, fica cada vez mais difícil assimilarmos as novas mudanças propostas. Principalmente porque ainda ouço alguns provectos senhores falando em contos e mil-réis. Para quem não sabe, essas eram a nossa moeda nos idos de... ah!, faz tanto tempo que já nem me lembro mais!


Texto apresentado em 8/02/09 na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina

Nenhum comentário:

Postar um comentário