11.5.07

Síndrome da empresa falida

A empresa era antiga. Por ela, passaram muitos dirigentes que fizeram história, deixando seus nomes e fotografias honrosamente estampados no hall da fama.
Infelizmente, com o seu crescimento, também tiveram vez os vigaristas, estelionatários, incompetentes, corruptos e mentirosos, todos eles nomeados ou eleitos por um Conselho Eletivo absolutamente deficiente e indiferente à situação da empresa. Que ia de mal a pior.
Certo dia, uma equipe de consultores foi chamada para radiografar a situação e propor soluções para maior eficiência, produtividade e melhores resultados.
Não levou muito tempo e a consultoria chegou a várias conclusões. A mais importante: a empresa já estava falida há tempos. Suas realizações e produção eram pífias, tão escassas que jamais faziam jus às enormes despesas anuais.
Dentre os problemas listados pela consultoria, destacaram-se:
- Número absurdo de 513 diretores;
- Número mais absurdo ainda de funcionários, entre aspones, gespones e secrepones, girando em torno de 20 para cada diretor;
- Número indeterminado e totalmente fora de controle do pessoal da retaguarda (segurança, restaurante, manutenção, informática, serviços de infra-estrutura, pessoal terceirizado);
- Contratações fora do padrão mínimo de competência, geralmente por apadrinhamentos dos diretores ou de parentes;
- Despesas absolutamente exageradas, desde energia elétrica até material de escritório, equipamentos, veículos, consumo de água, mobiliário, telefonia, combustível.
- Gastos monumentais dos diretores em verbas de representação, viagens, estadias, almoços, e até mimos para pessoas não identificadas (amantes, amigos, etc.), despesas essas sempre lançadas na conta da empresa;
- Ocupação irregular de vários imóveis da empresa, muitos deles ainda na posse de diretores demitidos, afastados ou aposentados, sem quaisquer cobranças de alugueres;
- Falta de assiduidade ao trabalho: raras vezes todos os 513 diretores se faziam presentes. Por vezes, levavam semanas para que conseguissem reunir o número suficiente, possibilitando as tomadas de decisões.
- Redução na jornada de trabalho que, ao contrário das empresas produtivas, se limitava ao máximo de três dias semanais.
A consultoria apresentou várias soluções visando aumentar a eficiência da empresa e tentar safá-la da falência.
A primeira e mais importante proposta: reduzir o número de diretores para 180 (reduzindo também o número de pessoas do staff). A empresa ficaria mais ágil, eficiente e reduziria drasticamente os gastos.
A segunda nem chegou a ser apresentada: aos berros, xingamentos e até ameaças de prisão, os diretores, unânimes, enxotaram o pessoal da consultoria, que teve de sair correndo, sob uma chuva de pedras, livros, pesos de papel, canetas e outros objetos.
Se você ainda não sacou qual é a empresa, aqui vai a dica: fica em Brasília, instalada em luxuoso edifício projetado por Oscar Niemayer, está diariamente sob o foco dos refletores, chama-se Câmara dos Deputados, seus diretores chamam-se deputados e seus funcionários chamam-se aspones, gespones e secrepones. Lá não existe o mínimo controle sobre as enormes despesas que sugam o caixa do governo.
Sabemos de quem é a culpa: é minha, é sua, é de todos os brasileiros, que permanecemos quietos em nossos cantos, aceitando pacificamente essa discrepância que criou um Brasil feudal, igual aos tempos do Brasil Colônia e que se julga melhor e acima do Brasil de todos nós.


JEB

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