11.12.06

Os escribas



Crônicas de um saber insólito

Mississipi

Benjamin sabia que eles viriam. Entraram a galope no vilarejo dos negros atirando, olhos brilhando de ódio nos capuzes pontudos. Eram nove da noite.
Correu para dentro e disse ao neto, Josué, corra como o vento, menino, procure o delegado federal na cidade e conte pra ele o que está acontecendo, não pare por nada, vá!
Para que não vissem o garoto escapando pelos fundos, voltou à varanda onde um agressor, empinando o cavalo, lhe deu um tiro certeiro, morre, negro sujo! O velho caiu e seu sangue se misturou com as poças das chuvas finas e frias que anunciavam o começo do outono. A visão se turvou mas, por alguns minutos, ainda ouviu claramente o som das porretadas surdas, os gritos, os tiros, o tropél dos cascos, os palavrões dos brancos. Antes de apagar sentiu o cheiro de fumaça nas narinas, claro que eles haviam tocado fogo em tudo, como era seu bárbaro costume.
Abriu os olhos cansados quando entrava numa espécie de taberna enevoada iluminada por uma luz tênue. Havia quatro homens caminhando ao seu lado, negros, soube de alguma forma que eram o Lou, o Bird e o Ray. O quarto era branco, Frank . De uma grande porta ao fundo, o Mart, adivinhando sua ansiedade, o tranqüilizou, Joshua já está com o delegado na capital.
Ben desabou numa cadeira, aliviado. Um coro de vozes femininas se fez ouvir. Um HALELUIA poderoso começou a saudar sua chegada, aqueles acordes arrepiantes e plenos de beleza capazes de emocionar os céus e a terra. Mariah, de novo jovenzinha, veio recebê-lo sorridente. Deram-se as mãos. Ali já não havia beijos. Nem era necessário.

José Sudaia Filho
Taboão da Serra, SP

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