14.12.06

O estranho lá em casa



Alguns anos após eu nascer, meu pai encontrou um estranho que havia chegado recentemente à nossa pequena cidade. Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com o encantamento do recém-chegado e logo o convidou para ir morar com a nossa família. O estranho foi imediatamente aceito por todos nós.
Enquanto eu crescia, nunca questionei seu verdadeiro lugar na minha família. Na minha jovem mente, ele tinha um lugar bem especial. Meus pais se complementavam na minha educação: mamãe me alertava contra a maledicência e meu pai me ensinava a obedecer. Mas o estranho... ele era o nosso contador de histórias, nos entretinha por horas a fio falando de aventuras, mistérios e comédias.
Se eu quisesse saber alguma coisa sobre política, história ou ciências, ele sempre sabia as respostas sobre o passado, compreendia o presente e parecia até mesmo capaz de predizer o futuro! Ele levou toda minha família a assistir os jogos da primeira divisão de futebol. Ele me fazia rir e me fazia chorar. O convidado jamais parava de falar, mas papai parecia nem ligar.
Às vezes, mamãe se levantava silenciosamente e, enquanto o resto de nós ficava fazendo “psiu” um ao outro para impor silêncio e tentarmos ouvir o que o convidado tinha a dizer, ela se retirava para a cozinha em busca de paz e silêncio. (E eu me pergunto agora se ela não estaria torcendo para que ele fosse embora).
Papai orientou nossa família com fortes convicções morais, mas o nosso convidado jamais se sentiu obrigado a cumpri-las. Palavrões, por exemplo, não eram permitidos em casa. Não para nós ou para nossos amigos e visitas. Nosso eterno convidado, entretanto, nos surpreendia falando aquela certa palavra de quatro letras que queimava minhas orelhas e fazia meu pai ficar furioso e minha mãe corada.
Meu pai não permitia o uso de bebidas alcoólicas. Mas o nosso convidado nos encorajava a experimentá-las regularmente. Ele também fazia os cigarros parecerem “uma nice”, os charutos eram “coisa de macho” e os cachimbos davam o status de gente distinta. Ele conversava livremente sobre sexo (livremente demais). Seus comentários eram bastante explícitos, sugestivos e geralmente embaraçosos.
Eu sei agora que meus primeiros conceitos sobre relacionamentos foram fortemente influenciados pelo nosso convidado. Dia após dia, ele se opunha aos valores dos meus pais, já que era raramente contestado... e jamais lhe foi pedido para ir embora.
Mais de cinqüenta anos se passaram desde que o estranho mudou-se para nossa casa, vivendo com a nossa família. Ele se adaptou muito bem e continua sendo tão fascinante hoje como era no princípio. Pois se você vier até a sala de visitas dos meus pais, você o avistará parado no seu canto, aguardando por alguém que esteja disposto a ouvi-lo falar e a olhar para seus desenhos e imagens.
Seu nome?
Nós simplesmente o chamamos de aparelho de TV.
E recentemente apareceu seu irmão mais novo: chama-se Computador.


Autor desconhecido.
Tradução e adaptação de Julio E. Bahr



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