9.11.06

Quando é que o Brasil vai virar um país sério?


Julio Ernesto Bahr

1 - Aprendi que nosso país não é nem um pouquinho sério quando sofri minha primeira decepção, menino ainda, lá pelos anos 1950. Naquela época, para expandir o setor elétrico, o governo cobrava compulsoriamente um percentual sobre o valor da conta mensal, em seguida trocado por cupons que traziam estampados seus valores nominais, correspondentes ao empréstimo.
Pois bem, um dia meu pai me presenteou com os tais cupons, cuja soma nominal daria para comprar, por exemplo, uma bola de futebol. Qual o quê! Saí desiludido do posto de troca, com uns caraminguás no bolso, pouco mais do que o valor das passagens de ida e volta do ônibus. Alegação: os cupons correspondiam a ações que não haviam se valorizado!

2 - Anos mais tarde, empresas de capitalização e montepios buscavam avidamente clientes, prometendo mundos e fundos: retorno garantido, futura aposentadoria em valores iguais aos ganhos salariais, etc., etc.
Nas décadas seguintes quase todas aquelas empresas quebraram, varridas de roldão junto com as “casas bancárias” (agiotas oficializados), estas fechadas pelo governo, e outras instituições financeiras. As poucas que sobreviveram, jamais puderam cumprir suas promessas. As propaladas aposentadorias tranqüilas se transformaram em míseros centavos. Alegação: a louca inflação brasileira não havia sido prevista nos contratos e assim não caberia correção sobre os valores originalmente aplicados.

3 - Quando meus filhos eram pequenos, era comum os bancos nos presentearem com cofrinhos, para ensinarmos as crianças a pouparem. Quantos cofrinhos recheados de moedas nós abrimos juntos em casa, apenas para constatar que a inflação havia corroído o seu valor e que muitas daquelas moedas até já haviam saído de circulação, pois o dinheiro brasileiro mudara de nomenclatura mais rapidamente do que conseguíamos encher os cofrinhos!?

4 - Nos anos 1970 enfrentamos a chamada “Crise do Petróleo”. O governo obrigou-nos, proprietários de veículos, a pagar um imposto compulsório sobre cada litro de combustível comprado. Prometeram-nos a devolução de todo o imposto no futuro, com correção monetária e juros. Mudaram os governantes e as promessas obviamente não se cumpriram. Eu mesmo acabei jogando fora vários envelopes recheados de notas fiscais de combustível, já amareladas pelo tempo, que ingenuamente guardara para requerer uma futura restituição.

5 - Quando há alguns anos, por sugestão do então Ministro da Saúde Dr. Adib Jatene, se criou a CPMF, que deveria resolver os problemas da saúde no Brasil, o nome do imposto era Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras. O dinheiro foi rapidamente desviado para outras finalidades. O Dr. Jatene saiu magoado do governo e a mesma CPMF trocou o nome de Provisória para Permanente. E continua aí ouriçando novamente muitos políticos, alguns deles sugerindo seu aumento.

6 - Um dos nossos governantes demagogos decidiu, em certa época, acabar com as cobranças de pedágio nas rodovias. Para substituir aquele imposto, criou-se o chamado IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores). Tempos depois, alguma mente iluminada redescobriu a América e nos impôs novamente o pagamento de pedágio. Apenas esqueceu-se de retirar o outro imposto, o IPVA. Hoje, para circularmos com nossos veículos, todos nós pagamos ambos os impostos e a maioria da população nem sabe ou esqueceu-se de que estes se constituem, na verdade, em bi-tributação.

7 - Neste ano de 2006, fui forçado pela Sul América Seguros a re-pactuar um Seguro de Vida, que já pagava havia 28 anos. Ameaçado de perder o seguro, aceitei os novos termos, que reduziram – e muito - todos os valores anteriormente contratados. E mais: o prêmio mensal que era anualmente corrigido pelos índices da inflação passará a aumentar de valor de acordo com a faixa etária. Quanto mais velho o segurado, mais caro o prêmio.

8 - E por último, percebo com tristeza que as leis brasileiras foram mesmo criadas para não serem respeitadas. A mesma empresa Sul América, desta vez no segmento seguro-saúde, da qual sou segurado há 16 anos, me envia o carnê de cobrança mensal com um aumento de 75%, por mudança de faixa etária. Os dois últimos casos acima trombam de frente com a Lei 10.741, de 01/10/2004, que proíbe aumentos nos planos de saúde para quem tem mais de 60 anos de idade. Mas tudo indica que a poderosa Sul América, amparada pela tal agência reguladora ANS, protetora declarada das operadoras de saúde, se coloca acima da lei! Mais um caso para o Ministério Público resolver.

Por isso, fica a pergunta: quantas gerações ainda passarão por aqui até que nosso Brasil finalmente se transforme em um país sério e confiável?

3 comentários:

  1. Sr. Julio... o texto seria muito bom se não me levasse a lembrar o tipo de país que vivo. Espero que nossa geração faça melhorar pelo menos um pouco essa palhaçada que há anos vemos.

    Obrigado por seu blog, é realmente muito bom!!

    Eduardo Lebedenco - publicitário
    Porto Alegre / RS

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  2. Caro Eduardo, companheiro publicitário.
    Obrigado pelo seu comentário.
    Esse é o país em que vivemos. Como você vê, as regras do jogo foram feitas para não serem seguidas.
    Faz muito tempo que estamos esperando por mudanças.
    Mas num país em que o poder legislativo (legislar: tratar de leis) faz o papel do poder executivo (determinando, entre outras coisas, quais verbas vão para onde, vide as sangue-sugas), nós sobramos órfãos, quietinhos, parados, esperando... esperando...

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  3. Eduardo Lebedencoqui dez 14, 05:36:00 PM

    É de desanimar né????
    Dá vontade de sumir... mas eu tenho esperança... alguma geração vai ver esse país melhor!

    Abraço Júlio!!

    Eduardo Lebedenco
    Porto Alegre / RS
    dulebedenco@hotmail.com

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