8.11.06

Os escribas

Crônica escrita pelo meu amigo publicitário, cronista, web-designer e ilustrador
José Sudaia, de Taboão da Serra, SP – que também elaborou a ilustração.
Crônicas de um saber insólito

MacArthur era um rapaz latino-americano militante de esquerda. Havia mandado a namorada embora para não colocá-la em risco de morte, corriam anos de ditadura e repressão. Foi o que alegara, para se consolar das lágrimas delas.
Um ano depois, clandestino e procurado pela polícia política, trocara de nome e de barba e enfiara-se num cortiço de um anarquista italiano que tinha uma confecção nos alagadiços da Cantareira.
Bateu uma saudade dolorida e ele foi procurar Lirinha no café onde era garçonete. Não estava mais lá e ninguém sabia dela. Perguntou no bairro todo, comprometendo a sua própria segurança. Nada. Ainda não havia internet.
Estava lendo os clássicos para matar o tempo. Naquele crepúsculo morno de final de verão, março a dentro, adormeceu na poltrona de couro, sua única mobília, lendo Borges. Despertou sobressaltado com um estalido repentino.
O Fazedor caíra no chão, capa pra cima sem perder a página que acabara de quase ler. No vazio de sua vista ainda chocada, a imagem da ex, o cheiro de perfume espanhol de seus cabelos, a presença maciça de suas coxas grossas, a tatuagem da estrela com a tulipa que só era possível ver quando desabotoava o sutien para transbordar os seios fartos. No silêncio do quartinho, a voz que parecia vir de milênios atrás Você nunca terá uma namorada como eu!
José Sudaia Filho

2 comentários:

  1. Oi Seu Julio,

    Fiquei muito feliz ao recebem um e-mail do Fabio nos contando que poderíamos mais uma vez ler seus textos.

    Parabéns pelo blog. Seremos, com certeza, frequentadores de carteirinha.

    Um grande abraço,
    Rafael e Daniela

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  2. Rafa e Dani:
    Obrigado pelos comentários.
    Façam isso sempre.
    Julio

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