24.11.06

A criação publicitária nos tempos da prancheta. Parte II


Matrizes de pedras. Litografia. Você já ouviu falar?
No final da década de 1950, a Catalox(*), agência de propaganda em que eu trabalhava como assistente de arte em São Paulo, acertou alguns trabalhos gráficos com a empresa Weiss & Cia., uma gráfica muito, muito antiga, remanescente da década de 1920. Instalada na Rua Apeninos, na Aclimação, era dirigida por um imigrante austríaco, uma figura bastante imponente e autoritária.

Meu acesso à gráfica deu-se pelas mãos do seu neto, Raul C. Magen, até hoje um grande amigo meu. A Weiss & Cia. imprimia livros, embalagens e trabalhos comerciais.
Lembro-me de uma das suas antigas máquinas de impressão offset, talvez a maior e mais antiga que já tenha visto até hoje. Para acompanhar o serviço, o impressor subia por uma escada de ferro e caminhava em uma espécie de andaime, também de ferro, ambos montados na própria máquina. Quando lá subi, minha sensação era a de estar no tombadilho de um navio. Bem diferente dos modernos equipamentos de hoje.
E foi naquela gráfica que descobri um enorme salão, ladeado por fortes estantes de madeira, onde eram guardadas, bem ordenadas, pedras e mais pedras de impressão litográfica. A litografia, utilizada até os anos 1930, foi precursora dos clichês de zinco e utilizava pedras calcárias que recebiam a gravação invertida das imagens, um trabalho feito por especialistas. Os desenhos eram passados de um papel de seda, cor por cor, para cada pedra separadamente e a gravação feita à mão. As pedras eram as matrizes do processo de impressão. Trabalho de artistas.
Um dia, ganhei do meu amigo Raul um rolo de papel, já meio amarelado, que tinha sido encontrado no forro da gráfica. Era um belíssimo mapa da Revolução de 32, com o título “Esta he a carta verdadeira da revolução q:houve no Estado de São Paulo no ano de MCMXXXII”, assinado JWR (João Walsh Rodrigues, um dos maiores gravadores do Brasil e o primeiro ilustrador das histórias de Monteiro Lobato). Fora impresso em seis cores com as pedras do velho sistema litográfico e mostrava as posições das tropas paulistas e do Brasil no meio do conflito de 1932, cidade por cidade, em todo o Estado de São Paulo. O mapa, encomendado pelos constitucionalistas, tachados na época de separatistas era, portanto, clandestino. A história conta que, terminada a revolução, por causa de uma denúncia, soldados getulistas foram revistar a gráfica e confiscaram os mapas, obrigando também o antigo proprietário a quebrar as pedras na sua frente, ou seja, as matrizes da impressão original.

A Weiss & Cia. foi vendida em 1972 para a Gráfica Hamburgo. Presumo que apenas dois mapas, encontrados no forro da gráfica, ficaram preservados para a posteridade. Um deles foi doado oficialmente pela Gráfica Hamburgo à Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo – e o outro... está bonitinho, emoldurado, preservado, exposto na minha casa.
Nunca mais tive notícias do enorme acervo das máquinas de impressão, nem das pedras litográficas, peças de museu que hoje representariam um verdadeiro tesouro.

(*) Fiquei muito feliz ao descobrir neste ano de 2006 que a empresa Catalox , que deixou de operar em 1963, está citada em um site na França. Foi a oportunidade de reencontrar via internet um dos ex-sócios da agência, que para lá retornou em 1965: Tito Topin (www.titotopin.com ), meu amigo, hoje um consagrado escritor, roteirista e autor de seriados na TV francesa, entre elas “Navarro”, uma série policial que chegou próxima a 120 capítulos.

2 comentários:

  1. olá júlio: estive por aqui retribuindo a visita. se me der licença, sempre que houver textos que afinem-se com a nossa linha editorial(são doze blogs e muito coisa para não fazer enquanto pensamos se vale a pena ou não voltar para a linha de frente) a gente republica.
    um abraço

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  2. Júlio,seu texto é uma verdadeira aula de História a respeito de um tempo,uma São Paulo e uma Arte Gráfica que tempo algum jamais apagará,pois que foi através disso tudo que chegamos até aqui(embora muita gente pense que tudo começou nestes últimos anos).
    Você é testemunha viva e sujeito ativo desse tempo , lugar e acontecimentos. Cita,descreve e nomeia lugares,datas,espaços, ,pessoas,máquinas,artefatos,objetos de arte e etc.É recompensador acompanhá-lo nesse processo de recriar a História.Seu texto se afina com a linha editorial de quem quer que seja que cultive a arte,a seriedade e o amor à verdade e à erudição em seu trabalho.
    Finalmente quero dizer que ,se você se referisse somente às 'pedras litográficas' já estaria nos oferecendo um verdadeiro achado,tanto para o mundo das artes gráficas quanto para o mundo da Arte,em geral.
    É uma pena que,neste país,a História e o amor à cultura estejam o tempo todo sendo massacrados.
    Seu texto é riquíssimo de "pistas" para pesquisadores de todas as áreas.
    São Paulo é sempre cultura.
    Parabéns!


    (Maria Auxiliadora Franzoni)

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