29.10.06

Manual Pós-Operatório

Por Julio Ernesto Bahr

Hospitais e médicos esqueceram-se de preparar um
Manual Pós-Operatório para pacientes que precisam ser submetidos a alguma cirurgia.
Aliás, ninguém fala absolutamente nada a respeito.
Tente entrevistar algum médico ou atendente: você vai descobrir que há um pacto universal de silêncio.
Mas não se preocupe, finalmente alguém se lembrou de você.
Leia com atenção estas dicas e pense duas vezes (ou mais)
se você está realmente “disposto” a passar por alguma cirurgia.


- Imagine quão ruim possa ser o seu estado físico e emocional após uma cirurgia. Esteja preparado: tenha a certeza de que você vai sentir-se muito, muito pior. Seja lá qual for a cirurgia.

- Em alguns tipos de cirurgias, poderá ocorrer que você vá para a sala operatória em excelentes condições físicas. Não se preocupe, seu pós-operatório será igualmente o pior possível. Você voltará estropiado, furado, remendado e mal poderá caminhar por vários dias.

- No hospital você vai se surpreender: ainda se usa medicações do tempo da vovó. Dramim contra enjôos e Luftal contra gases são os campeões de audiência. Isso, se seus vômitos permitirem captar quaisquer explicações da enfermagem. Deixe pra lá: esse seu estado calamitoso vai durar só poucos dias.

- Procure ficar o menos tempo possível em um hospital. Hospital é o único lugar do mundo em que irão acordá-lo para tomar remédio para dormir. Mesmo que consiga dormir à noite, você será impiedosamente despertado a cada duas horas, por um atendente revoltado por virar um turno de mais de vinte e quatro horas, que acenderá uma luz bem na sua cara e medirá sua febre e pressão, ajustará o soro e o obrigará "delicadamente" a engulir “n” comprimidos.

- Certifique-se de que você tem ótimas veias para serem espetadas, pois vão lhe instalar um cateter. As pessoas dificilmente têm boas veias e, antes de acharem aquela onde o cateter será implantado, você já terá sido furado em várias partes dos braços. Mais tarde você poderá se distrair, observando a mudança de coloração das partes lesionadas. As cores passam gradualmente de esverdeado para azul, para roxo e para preto. Nada que um prazo de duas a três semanas não faça desaparecer.

- Antes de se submeter a uma cirurgia certifique-se de que você não seja alérgico a esparadrapo. Os resultados de uma alergia serão infinitamente piores do que qualquer tipo de sutura e, dependendo da região, ficam em carne viva e demoram semanas para sarar.

- Médicos adoram recomendar sondas na bexiga. Você nem sente quando enfiam a sonda através do seu pênis, afinal você estará anestesiado. O problema será o durante e o depois: atendentes chamam esta sonda de "cachorrinho", pois vira-e-mexe você se esquece dela e, a cada caminhada, sai arrastando o saco plástico, cheio de urina, pelo chão. Os resultados vão aparecer logo depois que um atendente (geralmente uma bicha) puxá-la rudemente e “a frio” para fora do seu pênis. A dor e a ardência costumam passar depois de uns vinte dias. E é melhor usar fraldas, pois você vai ficar expelindo sangue pelo mesmo período de tempo. Dizem que as atendentes bichas fazem um sorteio prévio para saber qual delas virá retirar sua sonda. Se você for jovem, cuidado...

- Nunca acredite no prazo que o médico calcula para lhe dar alta: você sempre acaba ficando um ou dois dias a mais no hospital.

- É na saída que você vai descobrir porque os operados saem em cadeira de rodas: você estará tão debilitado, tão machucado e tão dopado que não conseguiria mesmo caminhar mais do que 10 metros sem ajuda.

- Quando seu médico ficar repetindo a cada visita que “está tudo dentro do quadro”, não adianta você olhar em volta no seu quarto e tentar encontrar o tal quadro de que ele tanto fala. Quando você sair do hospital e conseguir raciocinar melhor, se dará conta de que se trata de “quadro clínico”.

- Se você acha que vai se deliciar com as refeições servidas em hospital, esqueça. Comidas servidas em penitenciárias são infinitamente melhores, pois os fornecedores são pressionados para oferecer qualidade, sob risco de ocorrerem rebeliões.

- Não estranhe a coloração e a textura das verduras que acompanham seu almoço: elas são longamente fervidas para evitar bactérias. Bem, elas também chegam livres de qualquer sabor e sem a mínima possibilidade de identificação.

- Acostume-se com o horário das refeições. O almoço chega às 11:00h e o jantar é servido às 17:00h, bem antes daquele horário em que você costumava encontrar os amigos para um animado happy hour e beliscar um queijinho para abrir o apetite.

- Todo hospital contrata atendentes bichas. Não caia na asneira de emitir qualquer comentário desairoso com seu companheiro de quarto ou acompanhante. Se você tratá-las bem, a recíproca será verdadeira. Geralmente elas são muito mais delicadas do que quaisquer atendentes femininas.

- Se algum dos seus amigos lhe contou histórias mirabolantes sobre alguma atendente sexy e bonita, é mentira deslavada. Não existem atendentes sexy e bonitas no hospital onde você será operado. A mais bonita que chegou a me atender era autoritária, quarentona, tinha cabelos grisalhos e usava óculos de fundo de garrafa. Hospitais preferem eficiência à beleza. As atendentes bonitas estão sempre trabalhando em outro hospital.

- E, finalmente: é no hospital você vai descobrir o real significado da palavra “paciente”. Lá, paciente significa o oposto de tudo que a palavra possa indicar. Pacientes são os atendentes, pacientes são os médicos, paciente é o pessoal da limpeza. Você é um pobre coitado abandonado à própria sorte, abatido, nervoso, amedrontado, cansado, fragilizado e que não vê a hora de ser liberado para voltar para casa. Você é tudo, menos paciente.

Um comentário:

  1. Ola Julio, sinto muito que a sua experiencia tenha sido tão traumatica. Creio que o que relata aqui, acontece mesmo,mas nem sempre com todos esses tristes detalhes. As vezes o medico é otimo, mas a enfermagem nao, as vezes é o contrario. Ha medicaçoes que nao ajudam muito e outras que sao essenciais...enfim...Esse seu relato, muito bem escrito por sinal e que deve ter sido fruto da sua experiencia, nao ajuda muito, nos casos como o meu e de outras pessoas, que nao podem escolher se operam ou nao e se deparam com tantos aspectos negativos de uma cirurgia. Entrei aqui para ler algo que me deixasse mais calma e confiante, mas saio apavorada.Seu texto nao é um aviso é uma profecia.
    abraço!
    bethpepes@hotmail.com

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